Histórias de Portugal: Seu Rui

Histórias de Portugal

o Rio que seu Rui não viu

Seu Rui morou em Lisboa a vida toda e sempre gostou de viajar. Trabalhando em uma empresa de aluguel de carros, teve a oportunidade de ir ao Canadá, aos Estados Unidos e a alguns países da Ásia e África.

Mas seu Rui guardava mesmo o desejo de conhecer o Brasil. Pensar nos dias ensolarados, nas praias e na alegria daquele povo o estimulava e alimentava este sonho.

Certo dia, depois de anos trabalhando na mesma companhia, veio o convite de ir ao Brasil, onde participaria de uma convenção sobre destinos e aluguel de carros, no Recife. De lá, iriam para o Rio de Janeiro. Seu Rui não podia acreditar que, a trabalho, conseguiria realizar o grande sonho de sua vida e ainda veria as praias cariocas e teria a oportunidade de, quem sabe, conhecer as mulatas brasileiras.

Seu Rui arrumou as malas e teve o cuidado de, além de levar as roupas adequadas para o evento de que participaria, separar também sungas, calções de banho, toalhas e roupas próprias para um verão tropical.

Eis que chega o dia. Seu Rui embarca exultante. Já no Brasil, mal consegue aproveitar os primeiros momentos, ocupado com as palestras da convenção de destinos e carros de aluguel. Por mais que tente, pouco consegue escapar das longas e maçantes conversas. Mas uma manhã, cansado de não conseguir ver o dia no País que sempre quis visitar, seu Rui deixa uma das palestras de lado. – É apenas uma, ninguém notará minha ausência – pensa.

Pelas calçadas de Recife, sai seu Rui, mal cabendo em si de felicidade. Ele olha o mar, o céu, as nuvens, vê os quiosques, as mulheres de biquínis, as crianças correndo. É muita informação visual para seu Rui, que tenta capturar tudo rapidamente, para não perder nenhum detalhe daquela paisagem perfeita. E, então, VUPT, tudo desaparece da vista de seu Rui. O sol sumiu, as garotas desapareceram, não há mais areia nem quiosques. Até o chão desapareceu. Sim, o chão desapareceu.

Seu Rui caiu em um bueiro, cuja tampa havia sido levada por meninos que a revenderiam por alguns trocados. Do fundo do bueiro, seu Rui foi direto para o hospital e, com as pernas em frangalhos, passou o resto da viagem na cama.

O pior não foi ficar em Recife com as pernas para o alto. Afinal, em segundos seu Rui havia visto tudo que era possível daquela cidade. Ele estava quase satisfeito.

Mas, no Rio de Janeiro, o sofrimento foi grande. A cada tarde que passava, o colega de quarto entrava mais sujo de areia, mais bronzeado e mais feliz. E seu Rui, pobre do seu Rui, “fiquei lá com as pernas rasgadas penduradas até conseguir vir embora”. Desde então, nunca mais teve a oportunidade de fazer uma viagem ao Brasil. E continua acalentando o sonho de ver o sol brasileiro, a areia branca, o sol azul e as mulatas. Ah, as mulatas…

TEXTO: ÉRICA FRANÇA
FOTO: DIVULGAÇÃO

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8 thoughts on “Histórias de Portugal: Seu Rui

  1. Sua fã nº 01

    Amei a narrativa, principalnebte porque a ouvi do próprio senhor Rui, voc~e reproduziu com fidelidade o que ele nos contou…lindo meu amor…bjus

  2. Fábio

    Sensacional a hitória! E muito bem contada.

    E o seu Rui teve é sorte. Fosse hoje ele não ia ver nada porque algum bandindo ia dar uma coronhada nele. Hahahahahaahahahahahahaha

    E ele voltaria com uma camiseta: “Deixei meu coração no Rio. Minha carteira também”.

    Beijos, linda

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