Um coração dividido entre Grécia e Brasil

Aos 15 anos, Alexis resolveu sair de casa. Era muita pobreza no seu país. A Grécia havia passado por um golpe militar em 1960 e a vida não estava fácil. Outro golpe militar se aproximava, aconteceria na década de 70. Em casa, parece que o clima de guerra era reproduzido. Certa vez, quando seu pai reclamou da comida, a mãe pegou uma arma, atirou contra ele (por sorte, atingiu apenas o prato – o hábito de se quebrar pratos pode ter nascido daí) e o colocou para fora de casa. Foi só por uma noite, mas o clima não era dos mais amenos.

Pois bem, tanto sangue correndo pelo País, pelas mãos do governo militar, tantas dificuldades financeiras e a família definhando junto com elas. Não há condições de se viver desta forma. E há um mundo todo para se descobrir e, certamente, acreditava Alexis, haveria lugares melhores e em paz, sem guerras.

Assim, ele se foi. Com sua mala na mão, com as poucas roupas que tinha, e apenas o grego na cabeça (ele não dominava nenhum outro idioma, naquela época), saiu do País. Rodou bastante pela Europa. Gostou de alguns lugares, mas até hoje não suporta a lembrança de outros. Um dos países mais hostis para ele foi a Alemanha. Ao pedir informações para um funcionário de um posto de gasolina, o funcionário lhe deu as costas. Esta atitude se repetiu em outro ponto da cidade. Resolveu ir embora daquele lugar inóspito.

Começou a se dar bem em um ambiente latino. Aos pés da Torre de Belém, em Portugal, encontrou trabalho. Ali, vendia peixes que os pescadores traziam do Tejo. Não era muito dinheiro que ganhava, mas ia sobrevivendo. E começava a gostar da simpatia deste povo.

Grécia e Brasil
Como o povo latino lhe recebeu bem, resolveu radicalizar. Tomou o navio rumo ao Novo Mundo, tal um Cristóvão Colombo 500 anos depois. Desembarcou na Argentina.

Grécia e Brasil
Com outros gregos, vindos no mesmo navio ou em outras embarcações, na mesma época, conheceu bem Buenos Aires. Sobrevivia de pequenos bicos, biscates, foi a restaurantes, ganhava algum trocado até mesmo para namorar. Diz a lenda que algumas namoradas argentinas até hoje o procuram, não se sabe bem a razão.

Da Argentina, subiu para o Brasil. Já falava espanhol, já havia experimentado bastante, a Argentina não lhe bastava mais. O país é lindo, a comida é boa, mas há mais para se conhecer.

Veio para o Brasil. Pinta de grego, arranhando um português com sotaque europeu (ou seria portenho?), se deu bem. Conheceu muitas garotas, levava-as ao cinema (elas pagavam. Ele era um estrangeiro sem dinheiro e sem emprego, afinal…e as mulheres estavam mais feministas), arrumou trabalhos. As oportunidades foram ficando melhores, mais sérias. O Brasil era um país de boas oportunidades, que recebia bem os estrangeiros. Eles não eram maltratados. Ninguém nunca lhe deu as costas quando ele pediu uma informação. E isso não acontecia mesmo quando ele misturava o grego com o espanhol e o português.

A vida foi melhorando, o emprego também melhorou, ele até se casou. O Brasil era mesmo uma terra de imigrantes e foi uma bela neta de imigrantes italianos, de pele e cabelos loiros e lindos olhos azuis que o encantou. Teve com ela quatro filhos e um casamento muito feliz.

Se ele sentia falta da Grécia? Sim, sentia. Mas, depois de tantos anos, perdeu o contato com a família, não sabia mais como andavam as coisas por lá e não sentia muita saudade da ditadura nem dos conflitos familiares. Sim, ele também pegou uma ditadura por aqui. Mas aqui o povo é latino, as mulheres têm olhos azuis e os amigos são gentis. A situação era outra.
Depois de alguns anos, sem se mexer muito para ter notícias da família, recebeu uma carta de um parente distante. É meio nebuloso o caminho que a carta fez até alcançar-lhe, mas esta história é verídica, creia-me: sua mãe havia falecido e toda sua família já o havia dado como morto há muito tempo.

MORTO? Sim, ele veio embora há muitos anos (tá bom, 20 anos) e não dava notícias. Mas morto? Então não confiavam em sua habilidade para sobreviver fora do lar?

Refeito o contato com a família, passou a ligar constantemente para os irmãos (para um irmão, vá lá, do outro ele não gostava muito) e começou a se reaproximar. Pelo menos, por telefone (e em ligações rápidas, as tarifas estavam pela hora da morte). Não havia condições de voltar à Grécia. Afinal, ele trabalhava, mas tinha quatro filhos, uma esposa, uma casa para sustentar. Não era tão fácil assim.

Com o tempo, a saudade foi apertando, aquele saudosismo pela terra natal foi crescendo. As memórias da ditadura sangrenta foram sumindo, mas brotavam na memória as oliveiras, as mulheres das aldeias vestidas inteiramente de preto. Lembrava-se das músicas das festas familiares, das danças. Não podia assistir ao Zorba, o Grego, sem se emocionar. Sim, sentia saudades.

Grécia e Brasil
Os filhos já estavam crescidos, casados, ele já tinha netos. A amada esposa não estava mais com ele. Ele dividia a vida com uma nova e amada companheira e as coisas estavam um pouco melhores. Voltou à Grécia.
Visitou sua aldeia natal, a casa onde passou a infância, visitou o irmão, que vive em Atenas, visitou a aldeia do pai e da mãe, e tudo mais quanto foi possível.

Depois desta primeira visita, volta à Grécia a cada dois anos e voltaria mais se pudesse. Não fossem os netos, iria com a sua mulher para lá. Viveria bem com as saladas de queijo fetta, os gyros, as bem servidas doses de ouzos e as danças e festas em família.grécia e Brasil

A paixão pela Grécia o pegou (ou reconquistou) de tal forma que iniciou, meio sem querer, um trabalho voluntário. Conheceu outros gregos que vivem no Brasil e que se distanciaram da família. Fazendo o meio de campo, por pesquisas, inclusive in loco, conseguiu reaproximar algumas famílias.

Uma delas veio recentemente ao Brasil encontrar o parente perdido. Aproveitou para visitá-lo e agradecê-lo pelo enorme bem que foi feito. Trouxeram presentes para Alexis, jantaram em sua casa, foram momentos agradáveis.
Antes de ir embora, voltaram para se despedir e deram suas impressões do Brasil. Haviam ido à praia, conhecido São Paulo, mas definitivamente não tinham gostado das estradas, das vistas, da pobreza. Estavam ansiosos por voltar à Grécia.
– “Mas como? Vocês não gostaram daqui? Vocês acharam as nossas estradas feias? E o que vocês vêem de bom naquele país de vocês? Aquilo tudo não passa de um monte de ruína, tudo destruído, um horror.”

Grécia e Brasil
Os gregos foram embora ofendidos e não entenderam bem. O grego-brasileiro explica:
– “Foi aqui que fui bem recebido, arrumei emprego, constituí família. Toda minha família está aqui. Eu sou brasileiro.”

Mesmo tomando “cafê” e comendo “macarrôn” nos finais de semana, ele é sim brasileiro. Mas, ah…também é grego, apesar de todas aquelas ruínas.

TEXTO: ÉRICA FRANÇA
FOTOS: ÉRICA FRANÇA E DIVULGAÇÃO

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5 thoughts on “Um coração dividido entre Grécia e Brasil

  1. Fã nº 1

    Lindo!!! Fiquei emocionada. Parabéns pela iniciativa de contar a história de uma pessoa tão querida. Lindo texto. bjus…amo vc

  2. Fã nº 1

    Lindo!!! Fiquei emocionada. Parabéns pela iniciativa de contar a história de uma pessoa tão querida. Lindo texto. bjus…amo vc

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