Crônica Casa Rosada: Só por hoje não vou falar português

Crônica Casa Rosada

“- Hoje eu não vou falar português. Só por hoje eu não vou falar português.”

Como um verdadeiro juramento dos Alcoólicos Anônimos, um dos guardas da Casa Rosada, em Buenos Aires, promete a si mesmo todas as manhãs, ao acordar, que não vai falar português um dia inteirinho. Não é que ele tenha algo contra a língua de seus vizinhos. Ele não tem. Prova disso é sua extrema habilidade para falar o português sem que ninguém perceba o sotaque portenho.

O problema é que, desde que começou a trabalhar como guarda na Casa Rosada, ele deixou suas origens de lado. O sonho de ser funcionário de um dos maiores símbolos de seu País e de, com isso, provar todo seu amor pela Argentina, foi por água abaixo. Trabalhar na Casa Rosada não significa mostrar o orgulho pelo seu país, mas sentir-se brasileiro dia a dia. O espanhol sai de cena. O que se fala naqueles corredores (a não ser em visitas de líderes mundiais, convenhamos) é POR-TU-GUÊS.

São milhares de turistas brasileiros por dia. Fazem algazarra, falam alto, dão risada, tentam um portunhol e pedem para tirar foto com os guardas. Ao contrário dos sisudos ingleses do Palácio de Buckimham, estes são amigáveis. Abraçam o turista e sorriem para a câmera. Tudo no maior bom humor.

O problema é não falar espanhol. Nadinha de nada. Diariamente, são os turistas brasileiros que visitam a Casa Rosada e não os argentinos. Sim, há ingleses, americanos e suecos. E há os guardas que falam inglês e podem atendê-los. Mas falar fluentemente mesmo e conduzir um grupo inteirinho de pessoas saltitantes, só o nosso amigo que fala e sonha em português.

Desde o início de seu trabalho, ouve tanto português que aprendeu simplesmente de ouvido. Fala fluentemente.

“Ué, até você é brasileiro?”, pergunto, surpresa com um guarda da Casa Rosada que é brasileiro. Tudo bem que nós dominamos a área, mas até o funcionário da Casa Rosada?

“Não, sou argentino”, ele responde.

E eu duvido: “Imagina, com este português, é impossível”.

“Eu só ouço português. Acordo todos os dias e digo a mim mesmo: hoje eu não vou falar português. Mas aí chego aqui e só tem brasileiro”, conta, com um muxoxo.

Talvez ele se irrite mesmo por não falar seu querido espanhol. Mas ele já vê vantagens em falar um português perfeito. “Meu irmão mora no Rio Grande do Sul e vou passar minhas férias lá. Vou chegar sabendo tudo de português para poder conversar com as meninas de lá”.

Conversar? Sei…

TEXTO E FOTO: ÉRICA FRANÇA

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3 thoughts on “Crônica Casa Rosada: Só por hoje não vou falar português

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